Feeds:
Artigos
Comentários

 

DSCI0190_resize

Sou psicanalista. E tenho fé. E não tenho de cometer nenhum suicídio intelectual para que elas convivam dentro de mim.

A psicanálise diz em prosa aquilo que a poesia e a literatura souberam sempre: “somos feitos da mesma matéria dos nossos sonhos” (Shakespeare). Essa afirmação, se interpretada cientificamente, é um non-sense. Pois ela diz que o nosso corpo é feito com uma mistura impossível de realidade e irrealidade. Realidade: ossos, músculos,sangue, cérebro, neurônios, hormônios – entidades que moram no mundo da ciência. Mas sonhos? Sonhos são irrealidades. Não possuem substância. São imagens que aparecem fortuitamente na mente para logo desaparecerem, faltando-lhes as qualidades cartesianas de clareza e distinção. Não é por acaso que a ciência os tenha eliminado do seu discurso, com a consequente redução da poesia e da literatura à categoria de “diversões”, brinquedos mentais vazios de qualquer realidade. Um cientista, como cientista, jamais iria à literatura para aprender sobre a realidade. Literatura é relax, uma alternativa aos tranquilizantes… A frase de Shakespeare, na verdade, contém uma nova filosofia herética que afirma que “aquilo que não é, é”. E a prova de que “o que não é,é” está em que o corpo chora, ri, ama, luta, produz arte, movido por essa irrealidade. Parafraseando Sartre: “O nada é ser”.

A psicanálise, assim, antes de ser uma prática terapêutica, é uma metafísica. E o seu poder terapêutico se deve ao fato de que ela trata as coisas que não foram não são e não serão como se fossem. Tudo começou nos sonhos: “A interpretação dos sonhos é o caminho áureo para o conhecimento do inconsciente”. O grande salto filosófico aconteceu quando Freud se deu conta de que os traumas que se encontravam na origem dos sofrimentos dos seus pacientes não pertenciam ao mundo que a ciência define como realidade. Não haviam acontecido de fato. Eram fantasias. Mesmo quando havia um núcleo de realidade na memória desses traumas, seu poder patogênico se encontrava numa ficção, a forma literária que a mente lhes dava.

Mas isso não era novidade para os místicos e os poetas. Eles sempre o souberam. Está escrito no texto sagrado que o corpo é o Verbo encarnado. D. Miguel de Unamuno, filósofo e místico espanhol (Guimarães Rosa, perguntado sobre o que ele pensava dos filósofos, respondeu: “A filosofia é a maldição do idioma. Mata a poesia desde que não venha de Kierkegaard ou Unamuno, mas então é metafísica” [Arte em Revista, ano I, na 2. São Paulo: Centro de Estudos de Arte Contemporânea, p. 7]), num humoroso diálogo fictício com um materialista que chamava as produções poéticas de “sardinhas fritas”, conclui o diálogo impossível retornando à sua solidão e repetindo para si mesmo:

Unamuno

Recuerda, pues, o suena tu, alma mia

– Ia fantasia es tu sustância eterna -,

Io que no fué;

con tus figuraciones hazte fuerte,

que eso es vivir, y Io dernás es muerte.

(Miguel de Unamuno, “Conversación segunda”,

Ensayos. Madri: Aguilar Ediciones, 1951, p. 554)

Fernando Pessoa também se movia no mundo dás coisas que não existem:

 

O que me dói não é

O que há no coração

Mas essas coisas lindas que nunca existirão…

São as formas sem forma

Que passam sem que a dor

As possa conhecer

Ou as sonhar o amor…

(Fernando Pessoa, Obra poética. Rio de Janeiro: Nova

Aguilar, 1990, p. 169)

Manoel de Barros, esse maravilhoso poeta mato-grossense, especialista em aforismos, também faz a sua escritura sobre o que não existe: “As coisas que não existem são mais bonitas…” (Livro das ignorãças. Rio de Janeiro: Record, 1993, p. 7).

 

 

E Paul Valèry: “Que seria de nós sem o socorro das coisas que não existem?”. Então o que não existe ajuda? Se ajuda, tem poder. Se tem poder, é real. Será que Deus pertenceria a essa classe de

não existentes que existem?

 

Riobaldo diria que sim: “Deus existe mesmo quando não há. Mas o demônio não precisa de existir para haver”

(Guimarães Rosa, Grande sertão: Veredas. Rio de Janeiro: José Olímpio, 1978, p. 49).

 

Esse “mas” parece introduzir uma diferença entre a “realidade” de Deus e a “realidade” do demônio. Mas basta ler o texto com atenção para perceber que tanto Deus quanto o demônio não precisam existir para haver; existem mesmo quando não há. O que nos conduz ao aforismo por meio do qual Guimarães Rosa resumiu essa metafísica insólita:

 

“Tudo é real porque tudo é inventado”.

Os artistas fazem amor com o que não existe. Trabalham para dar forma sensível a esse objeto – sabendo que ele sempre lhes escapará.

 

 

Por mais rosas e lírios que me dês

eu nunca acharei que a vida é bastante.

Faltar-me-á sempre qualquer coisa,

sobrar-me-á sempre o que desejar…

(Fernando Pessoa, Obra poética. Rio de Janeiro: Nova

Aguilar, 1990, p. 406)

A psicanálise, nos seus primórdios, participava da metafísica científica dominante. Considerava os sonhos (não existentes) como “efeitos” de “causas” históricas e biográficas, eventos realmente acontecidos. O processo interpretativo tinha por objetivo encontrar as raízes materiais das quais surgiam os sintomas que afloravam no corpo e na mente de pessoas perturbadas. Comentando Roheim (Magic and schizophreniã), Norman O. Brown diz o seguinte:

 

A psicanálise se iniciou como um avanço a mais da objetividade científica civilizada; expor os resíduos de participação primitiva, eliminá-los; estudar o mundo dos sonhos, da magia primitiva, da loucura. Mas o resultado da psicanálise foi a descoberta de que a magia e a loucura estão em todo lugar, e que os sonhos são aquilo de que somos feitos.

 

(Norman O. Brown, Love’sbody. Nova York: Random House, 1966, p. 154)

Assim, estamos destinados a viver fazendo amor com o que não existe. É impossível amar uma fórmula de física. Mas um poema, uma canção, um raio de Sol refletido numa gota d’água – isso nos comove. Amamos uma pessoa não por aquilo que ela é, mas pelo manto de fantasia com que a cobrimos.

Ludwig Feuerbach, antes de Freud, no seu livro A essência do cristianismo (que deveria ser leitura obrigatória para todo psicanalista), disse o seguinte:

 

 

A religião é um sonho da mente humana. (…) Vemos as coisas reais no fascinante esplendor da imaginação e do capricho… O homem – esse é o mistério da religião – projeta o seu ser na objetividade e, a seguir, faz-se objeto dessa imagem projetada de si mesmo, agora transformada em sujeito. (Ludwig Feuerbach, The essence of christianity. Nova York: Harper, 1957, pp. xxxix e 29-30)

 

Segundo Feuerbach – creio que Freud concordaria com ele -, o fenômeno objetivo denominado religião se deve a um mecanismo psicológico: o homem toma a sua essência (essa é a palavra usada por ele) e a projeta para fora, tendo o universo como tela. Assim, aquilo que era “sonho” é transformado numa realidade objetiva exterior, independente do homem, a qual se volta sobre ele e o domina. Essa é a essência da idolatria: a transformação do sonho em realidade. Os deuses são ídolos. Espero que as pessoas religiosas concordem comigo em que essa crítica está presente nos textos proféticos do Antigo Testamento. Entendo que toda a crítica freudiana da religião se refere a esse mecanismo de projeção e a seus resultados institucionais.

Eu me lembro a primeira vez que fui ao cinema. Menino, sete anos, sul de Minas. Terminado o filme, fiquei olhando para uma porta que havia ao lado da tela, esperando a saída dos artistas… Eu não sabia o que era “projeção”! As religiões são assim: pensam que as projeções que a alma faz sobre a tela da imaginação são coisas objetivas,

lá fora. Contra essa fé religiosa, a crítica freudiana é implacável. Pela simples razão de que a existência das projeções se dissolve sob a análise dos mecanismos mentais. A religião, assim entendida, não passa de uma ilusão.

Mas haverá outra forma de entender a fé? Uma fé que não seja crença nos seres que a religião afirma existir?

 

Uma fé que não necessite de ídolos?

Uma fé que seja capaz de conversar tranquilamente com a psicanálise?

Uma fé que respire o ar dos sonhos? Digo agora o que entendo por fé.

Já disse que, na experiência artística, fazemos amor com coisas que não existem. “As coisas que não existem são mais bonitas”: delas, a alma se alimenta. A própria existência da arte é uma evidência de que “as coisas que não existem têm o poder de nos socorrer”.

Quando, no meio de todos os sonhos que amamos, encontramos um sobre o qual lançamos a nossa vida, abandonando-nos a ele em virtude de sua beleza, sem nenhuma certeza, quando “apostamos” (Pascal, Kierkegaard) a nossa vida e nos lançamos no vazio do “não ser” – a esse ato eu dou o nome de fé. Ele nada tem a ver com a crença na existência de seres sobrenaturais. Não se trata de um suicídio intelectual pelo qual afirmamos a existência de algo que não pode ser testado. Trata-se de um ato de amor, de vontade e de coragem. Abandonando todas as certezas, por esse sonho eu arrisco a minha vida. Paul Tillich dava a esse gesto supremo de amor por um sonho o nome de ultimate concern – expressão que não sei traduzir, talvez “comprometimento último”. Como disse Miguel de Unamuno, católico convicto, no seu livro O sentimento trágico da vida (Porto: Educação Nacional, 1953, p. 145), “acreditar em Deus é, antes de mais nada e principalmente, querer que ele exista”. Ora, existe uma distância abissal entre afirmar “creio que Deus existe” e “desejo que Deus exista”.

Segundo Ernst Jones, “Freud disse de Nietzsche que ele tinha um conhecimento mais penetrante de si mesmo que qualquer outro homem que tenha existido ou que venha a existir” (Walter Kaufmann, Basic wrítings of Nietzsche. Nova York: The Modern Library, 1968, p. xi). Nietzsche tinha um profundo desprezo pelas religiões e pelosreligiosos. E, no entanto, ele  era um homem de fé. Acusando os cientistas de sua época que só reconheciam a realidade física, ele disse: “Vós sois estéreis; esta é a razão por que não tendes fé.

Mas quem quer que tenha criado teve seus sonhos proféticos e signos astrais – fé na fé”. Segundo o próprio Nietzsche, a louca firmação do eterno retorno de todas as coisas foi a mais alta forma de afirmação da vida que ele encontrou. Fato empírico? Não. Sonho. Esperança. Fé. Como Nietzsche, Freud desprezava as religiões e o pensamento religioso: ilusões, neurose. Por vezes, psicose. E, no entanto, como Nietzsche, ele tinha também a sua fé. Olhando para a vida, ele podia ver potências invisíveis, por detrás de tudo o que acontece. Dois deuses poderosos, Eros e Tânatos, Amor e Morte. Realidades? Não. Poesia, metáforas, sonhos. E olhando para esses dois deuses, ele orientou a sua vida. Apostou em Eros, a despeito da sombra de Tânatos que ameaçava a civilização. Todo o trabalho psicanalítico é, em última instância, um ato de fé, uma batalha para fazer com que o Amor triunfe sobre a Morte.

Garantias de um final feliz não há. A experiência clínica o comprova. A despeito disso, a fé brilha, invocando o socorro das coisas que não existem.

Rubem Alves

ovelha

Era uma vez um pastor que gostava muito de suas ovelhas. Gostava delas porque eram mansas e indefesas: não tinham garras, não tinham presas, não tinham chifres.

Eram incapazes de atacar e incapazes de se defender. Mansamente, elas se deixavam tosquiar. O pastor gostava tanto delas que prometeu defendê-las sempre de qualquer perigo. Como prova do seu amor, tornou-se vegetariano. Jamais mataria uma ovelha para comer. Como resultado de sua dieta de frutas e vegetais, o pastor era muito magro.

Havia, nas matas vizinhas, lobos que também gostavam das ovelhas. Gostavam delas porque eram mansas e indefesas: não tinham garras, não tinham presas, não tinham chifres. Eram incapazes de atacar e incapazes de se defender. Mansamente, se deixavam devorar. É: o gostar frequentemente produz resultados diferentes. O gostar do pastor produzia cobertores de lã. O gostar dos lobos produzia churrascos.

O pastor estava sempre atento para proteger suas ovelhas contra os ataques dos lobos. Levava um longo cajado nas mãos, para golpear os lobos atrevidos que chegavam perto, e arco e flechas para ferir os prudentes que ficavam longe.

Viviam, assim, pastor, ovelhas e lobos, num delicado equilíbrio.

A notícia das ovelhas chegou aos ouvidos de uns cães famintos e de umas hienas magras que moravam nas cercanias. Resolveram mudar-se para a floresta dos lobos para melhorar de vida. Parentes que eram, falavam a mesma língua e logo se entenderam. Organizaram-se, então, de forma racional, a fim de terem churrascos mais frequentes.

O cajado e as flechas do pastor se mostraram impotentes diante das novas táticas. Enquanto ele espantava os lobos que se aproximavam pelo sul, os cães e as hienas matavam as ovelhas que pastavam ao norte.

O pastor concluiu que providências urgentes tinham de ser tomadas para a segurança das ovelhas. Pensou: “Os lobos, os cães e as hienas atacam porque as ovelhas são indefesas. Se elas tiverem meios de se defender, eles não se atreverão. Preciso armar minhas ovelhas”. Mandou então fazer dentaduras com dentes afiados, chifres pontudos e garras de ferro, com que dotou suas mansas ovelhas. Os lobos e seus aliados, vendo as ovelhas assim armadas, riram-se da ingenuidade do pastor. O fato é que as ovelhas ficaram ainda mais indefesas do que eram, pois não sabiam usar as armas com que o pastor as dotara. Os churrascos ficaram ainda mais frequentes. com isso, lobos, hienas e cães engordaram.

O pastor teve, então, outra ideia: “vou contratar guardas de segurança profissionais para proteger minhas ovelhas”. Os guardas teriam de ser mais fortes do que cães, hienas e lobos. “Tigres” pensou o pastor. Mas logo teve medo. “Tigres são carnívoros. É possível que gostem de carne de ovelha.” Só se houvesse tigres vegetarianos.

Soube, então, que um criador de tigres, com o uso de técnicas psicológicas pavlovianas, havia conseguido transformar tigres carnívoros em tigres vegetarianos. Seus hábitos alimentares eram iguais aos das ovelhas. Nesse caso, não ofereciam perigo. O pastor, então, contratou os tigres vegetarianos como guardas de suas ovelhas. Os tigres, obedientes, começaram a guardar as ovelhas e diariamente recebiam, como pagamento, uma farta ração de abóboras, nabos e cenouras.

Os lobos, as hienas e os cães, vendo os tigres, ficaram com medo. Como medida de segurança, passaram a caçar as ovelhas durante a noite.

Os tigres, patrulhando a floresta, vez por outra encontravam os restos dos churrascos com que lobos, hienas e cães haviam se banqueteado. Sentiram, pela primeira vez, o cheiro delicioso de carne de ovelha. Lambendo os restos, sentiram pela primeira vez o gosto bom do seu sangue. E perceberam que carne de ovelha era muito mais gostosa que sua ração de abóboras, nabos e cenouras.

Pensaram então: “Melhor que ser empregados do pastor seria ser aliados dos lobos, das hienas e dos cães”. E foi o que aconteceu. Tigres, lobos, hienas e cães tornaram-se sócios.

Os lobos, as hienas e os cães tornaram-se atrevidos. Não atacavam mais durante a noite. Atacavam em pleno dia. Ouvindo os balidos das ovelhas, o pastor gritava pelos tigres. Mas eles não se mexiam. Faziam de conta que nada estava acontecendo. Mal sabia ele que os tigres, durante as noites, comiam churrasco com os lobos, as hienas e os cães. O pastor resolveu pôr ordem na casa. Chamou os tigres. Repreendeu-os. Ameaçou cortar sua ração, ameaçou despedi-los.

Foi então, em meio ao sermão do pastor, que os tigres começaram a se perguntar uns aos outros: “Qual será o gosto da carne de um pastor?”. E responderam: “É preciso experimentar!”. Dada essa resposta, o mais forte deles abriu uma boca enorme e emitiu um

Rugido horrendo, mostrando os dentes afiados. O pastor, olhando para a boca do tigre, viu então o que nunca imaginara ver: chumaços de lã entre os dentes do tigre.

Num relance, ele percebeu o destino que o aguardava: ser churrasco de tigre. E seu pensamento voou depressa. O pastor já notara que os lobos, as hienas, os cães e os tigres estavam gordos e felizes. Ele, vegetariano, defensor das ovelhas, estava cada vez mais magro. E assim, numa fração de segundo, ele compreendeu a realidade da vida. E, antes que o tigre o devorasse, ele propôs: “Façamos uma aliança…”.

E, desde esse dia, a fazenda, que se chamava “Ovelha Feliz”, passou a se chamar “Ovelha Saborosa”. E o pastor, os tigres, os lobos, as hienas e os cães viveram felizes pelo resto dos seus dias, cada vez mais gordos, as bocas sempre lambuzadas com gordura de ovelha.

Rubem Alves

Máscaras

 

masc

Tenho de confessar que o carnaval me cansa. O desfile das escolas de samba me causa um tédio sem fim. As plumas coloridas, as fantasias caras, o ritmo das baterias, o virtuosismo dos sambistas, o tremor das nádegas e seios nenhuma emoção me provocam a não ser o tédio. O que desfila no sambódromo é de uma mesmice chatíssima, que se repete a cada ano. Quem viu um viu todos.
Isso não se deve a nenhuma implicância minha com o carnaval. Eu até que gostaria de sentir entusiasmo. Pensei, então, que, quem sabe, um carnaval diferente… Quando eu era menino e estudava piano aprendi a tocar uma versão facilitada do Carnaval de Veneza. Fiquei sabendo, então, que em Veneza há um carnaval famoso. Mas nenhuma idéia eu tinha de como ele era, e ainda não tenho. Exceto que se trata de uma imensa orgia de máscaras. Veneza é uma cidade de máscaras que se vendem o ano inteiro, e eu mesmo comprei algumas.
As máscaras fascinaram Bachelard. Sobre elas escreveu um ensaio em que chama a nossa atenção para o fato de que, antes de existirem como objetos usados para esconder o rosto, as máscaras moram dentro de nós como entidades do nosso psiquismo. Todas as vezes que olhamos para um rosto e ele nos parece misterioso, lugar onde um segredo se esconde, estamos pressupondo que ele não é um rosto mas uma máscara, uma dissimulação.
Isso já é sabido de longa data. Está dito na palavra “pessoa”, que vem do latim persona, que quer dizer “máscara de teatro”. O teatro é algo que precisa de um público para existir. Sem um público ele não tem sentido. As personae, as máscaras de teatro, portanto, são usadas para um público. O público vai ao teatro para ver a “máscara”, a “representação” de um papel. Não lhe interessa o rosto verdadeiro por detrás da máscara. Esse rosto desconhecido é ignorado pelo público, não tem nome. São as máscaras que têm nome. O meu nome, Rubem Alves, não é o nome do meu eu verdadeiro. É o nome da máscara pela qual sou reconhecido pelo público. É o nome do papel que esse público pede que eu represente. A aplicação do nome persona, máscara de teatro, a nós mesmos, implica no reconhecimento implícito de que a vida é uma farsa, uma representação, um carnaval de Veneza.
Não somos nós que pintamos as nossas máscaras. Álvaro de Campos dizia que ele era o “intervalo” entre o seu desejo, o seu eu verdadeiro e aquilo que os desejos dos outros haviam feito dele, a máscara. Essa máscara que se chama pessoa e que é representada pelo meu nome é uma evidência de que eu não me pertenço. Pertenço ao público. Pela máscara torno-me um peixe apanhado nas malhas das redes do público. Pela máscara não sou meu. Sou deles. Aí eles me fritam do jeito que desejam.
Há um princípio da medicina homeopática que diz que o semelhante se cura pelo semelhante. Sugiro aos psicodramatistas que o carnaval de Veneza é uma terapia coletiva em que esse princípio homeopático é usado: máscaras se curam com máscaras. Máscaras de papel e tinta para nos libertar da tirania da máscara colada em nosso rosto. Ponho a máscara de papel e tinta sobre a máscara de carne e ninguém fica sabendo quem sou. Fico desconhecido, sem nome. Estou livre do público. Posso deixar que o meu eu verdadeiro saia.
Mas as máscaras de papel e tinta padecem de grave limitação. Chega sempre a hora em que elas têm de ser tiradas. Sobre isso se escreveu um conto, não me recordo o autor. Marido e mulher procuraram conventos onde ficar a salvo das tentações do carnaval. Representavam fielmente o papel que estava escrito nas máscaras coladas sobre os seus rostos. Mas dentro de suas malas os seus eus verdadeiros haviam colocado secretamente máscaras de papel e tinta: escondidos atrás delas eles seriam livres, pelo menos durante os curtos dias de carnaval. As despedidas de marido e mulher nem bem haviam terminado e já as mãos procuravam as máscaras. Adeus conventos! Três dias com máscaras de papel e tinta, três dias livres das imposições das máscaras de carne, três dias sem nome, três dias de liberdade. Marido e mulher, escondidos atrás das máscaras, descobriram parceiros maravilhosos com quem dançaram, brincaram e tiveram prazeres nunca tidos um com o outro. Mas, finalmente, a hora de se tirarem as máscaras. Meia-noite: tiradas as máscaras marido e mulher se descobrem um nos braços do outro…
Rubem Alves

A Selva e o mar

pássaro

Sua mãe nasceu no mar e era, inteirinha, amor ao mar. Ah! Você quer saber o que é o amor… Amar é querer trazer para bem perto aquilo que está longe, abraçar, esforço de pôr dentro aquilo que está fora, beber, com prazer, aquilo que fez os olhos sorrir. Pois é: ela bebia do mar tudo o que via, e o mar nela morava e ela o mar namorava: a imensidão azul mistério, as coisas que viviam nas suas funduras: corais vermelhos, algas verdes, peixes de cores brilhantes, incebergs branco-gelados de mares não vistos, músicas silenciosas de catedrais encantadas. Assim era o corpo da jovem. Você acha estranho? Pensava que o corpo era feito de carne, de sangue e de ossos? Puro engano. Nosso corpo é feito daquilo que o amor pôs lá dentro. E onde o amor quis, mas não pôde, ficou um vazio, que é onde mora a saudade… Assim era o corpo daquela jovem, quase menina: havia os sons acolhidos por seus ouvidos, barulho de ondas, um paciente ir e vir sem fim como a vida… Odores de coisas marinhas entravam lá dentro pelas narinas pulsantes e faziam bem a lugares ocultos; perfumes azuis de marolas e aromas de pérolas brancas… (Você já sentiu isso, o bem que um perfume faz, num lugar de dentro da gente que a gente nem sabe onde fica?) Sua pele brincava com a água e se arrepiava toda quando a brisa lhe fazia cócegas. E em seus olhos se viam gaivotas de brancas asas e barcos a vela ao vento. Quem lhe ouvisse o coração bater juraria que eram ondas… Seus seios, conchas lisas que abrigavam criaturas macias. Seu ventre, lugar de mistérios, como a vida secreta do mar, caverna escura onde nadavam peixes minúsculos e invisíveis sementes ficavam à espera. Mas havia uma coisa que ela não podia entender: era uma tristeza, suave, nostalgia. Não lhe bastava o mar infinito. Havia os Vazios, Desejos, Ausência imensa, Saudade de algo que lhe faltava. E ela sonhava com coisas longínquas, e as amava: florestas que nunca vira, e pensava que seria bom se, um dia, o mar e a selva se encontrassem e o azul e o verde se misturassem. Ela amava o mar que nela morava, e a selva, ausência, pedaço que lhe faltava. E cantava o nome do seu amado: “Os bosques são belos, sombrios, fundos…” (Frost). Seus olhos se voltavam então para o alto das montanhas, longe, e viam as silhuetas de árvores, no céu e imaginavam belezas e mistérios diferentes daqueles do mar. E amava a floresta com que sonhava. Seu pai nascera no meio da selva e o seu corpo crescera com árvores velhas de muitos anos, frutas silvestres de muitas árvores, musgos macios de muitos verdes, aves de vozes de muitos cantos, grilhos ocultos em muitas noites, correntes de águas de muitas pedras, flores silvestres de muitos cheiros, terra macia de muitos brotos, vidas que renascem de muitas formas… Ah! Assim era o seu corpo. “E como ele se entregava! Amava seu mundo interior, caos selvagem, bosque antiquíssimo, sobre cujo silencioso despertar verde-luz seu coração se reerguia” (Riilke). Mas ele também tinha um sentimento triste, vazio, doía-lhe o lugar da Falta. E quando o sol se punha sobre o mar, ele sentia uma nostalgia imensa. Como se a floresta não lhe bastasse, o desejo por algo belo-distante, ausente. E, da sombra verde das árvores, olhava a azul luz do mar, solene no horizonte, brincalhão na areia, e desejava mergulhar nele, e pensava que felicidade é isto: a selva penetrando no mar. Um dia os dois se encontraram, se amaram, a floresta mergulhou no mar, o mar abraçou a floresta, suas sementes se misturaram e uma criança nasceu… E ela tinha no seu corpo um pouco de mar e um pouco de selva… Ah! Felicidade maior não poderia haver, e até pensaram que seria eterna… Foram morar lá em cima, no lugar do pai, os três. Felizes…O pai, no seu mundo verde, velho amigo, conhecido. A mãe, no mundo verde, mistério com que sempre sonhara e desejara. A criança, feliz, por ser selva e ser mar. Mas o tempo passou e a felicidade acabou. No peito da jovem foi crescendo uma dor. Primeiro era saudade mansa que virou tristeza: e a floresta, tão bela de longe, virou prisão… E o jovem que tanto amara ficou estranho, gigante verde, senhor da floresta, seu carcereiro. Ah! Ela já não podia amar a selva e sua face se transtornou. E o mar que morava nela ficou sinistro, uma tempestade enorme cresceu por dentro, e no seu rosto quebraram ondas em cuja fúria até mesmo a criança se debatia. E a jovem virou tristeza por se ver assim, tão feia. (É preciso que você saiba disto: nós amamos as pessoas por aquilo que de belo elas fazem nascer em nós. Como se fossem espelhos. Se nos vimos belos naqueles olhos que nos contemplam, nós as amamos. Mas, se nos vimos feios, as odiamos…) E ela então compreendeu que, por mais belas que as matas fossem, ela seria sempre uma estranha, exilada, sem lar. E foi o que disse a seu companheiro, que a entendeu e disse que não importava. Viveriam à beira-mar para que ela reencontrasse a felicidade perdida. E assim aconteceu. A alegria voltou. Mas o tempo passou e a saudade chegou agora ao peito do jovem, onde a solidão foi crescendo, tristeza de quem vive em degredo, prisioneiro de ilhas cercadas de mar sem fim. E a jovem que ele tanto amara se transfigurou num mar de tristeza,ondas se repetiam de noite e de dia, sem parar: “Nunca mais, nunca mais…” E a floresta que morava nele se enfureceu, e acordaram os bichos sinistros que dormiam nela, cobras e escorpiões, e aflorou tudo naquele rosto outrora manso, e ele ficou sinistro, e havia fogo em seu olhar,e espinhos cortantes no seu falar. E ele chorou ao ver o espanto nos olhos da sua criança, espelhos tristes, e sentiu que já não era o mesmo, e nunca o seria, longe da selva, que era seu lar. E então compreenderam que, para continuar a ser belos, era preciso que o mar e a floresta fossem verdadeiros consigo mesmos e morassem nos seus lugares. E assim viveram, longe: a jovem, à beira-mar, saudosa da floresta, o jovem, na floresta, com saudades do mar… E é por isso que as pessoas se separam, por mais que isso as dilacere, para ficarem bonitas de novo e voltarem aos mares e florestas perdidos… Cada separação é uma busca de um amor que se perdeu: em cada partida, um desejo de reencontro.Quanto à criança, diziam os outros, que nada sabiam: “Não tem onde morar…” Ignoravam os mundos onde vivera e que no seu corpo pequeno moravam um mar e uma selva. E se ora estava com a mãe, à beira-mar, ora com o pai, na floresta, não é que um lar lhe faltasse. Ela era mar, era floresta, e podia sentir-se em casa onde quer que estivesse.

 

Rubem Alves

Lua azul - imagem by ju fusco

Lua azul – imagem by ju fusco

O espaço e o tempo do pensamento

O pensamento não se anuncia. Todas as vezes que tentei marcar hora para pensar, as ideias me fugiram.

NOTEI, NUMA mesa ao lado, uma menina que escrevia e consultava um dicionário. Agachei-me para conversar com ela. “Você está procurando no dicionário uma palavra que você não sabe?”, perguntei.
“Não”, ela me respondeu. “Eu sei o sentido da palavra, mas estou a escrever um texto para os miúdos e usei uma palavra que, penso, eles não conhecem. Como eles ainda não sabem a ordem alfabética e não podem consultar o dicionário, estou a escrever um pequeno dicionário ao pé da página do meu texto para que eles o compreendam.”
“Estou a escrever um texto para os miúdos” foi o que ela disse. Os que já sabem tornam-se naturalmente professores dos que ainda não sabem. Essa é a pedagogia natural das crianças quando elas querem ensinar as outras crianças a brincar. As que sabem ensinam as que não sabem, sem que para isso tenham de saber teorias.
Lembrei-me da deliciosa frase de Daniel Pennac no seu livro “Como um Romance”: “Que espantosos pedagogos nós éramos quando não nos preocupávamos com a pedagogia…”. As relações de aprendizagem e ensino se dão através das pontes poéticas que o amor constrói. A aprendizagem e o ensino são um empreendimento comunitário, uma expressão de solidariedade. Mais que aprender saberes, as crianças estão aprendendo valores de solidariedade. A ética é o ar que se respira silenciosamente, sem explicações, naquela sala imensa.
Numa parede encontrei dois quadros de avisos. Num deles estava escrita a frase: “Tenho necessidade de ajuda em…”. E, no outro, a frase: “Posso ajudar em…”. Qualquer criança que esteja tendo dificuldades em qualquer assunto coloca ali o assunto em que está tendo dificuldades e o seu nome. “Não entendo a regra de três”, assinado “Maria”. O Gabriel, passando por lá, vê a mensagem da Maria e, sem que a professora dê qualquer ordem, procura a Maria para lhe explicar a matemática da regra de três.
Dei-me conta então da importância da arquitetura no espaço escolar. A arquitetura, ao estabelecer espaços, determina os caminhos possíveis e permitidos. É preciso que os espaços sejam livres para que as relações aconteçam com liberdade. A arquitetura de corredores e salas, comum em nossas escolas, aprisiona as relações.
Lembrei-me então do que me dissera a menina ao me informar que também não havia separações no tempo. Relógios e campainhas são artifícios para obrigar o pensamento a fazer ordem unida. Toca a campainha: é hora de pensar matemática, 45 minutos pensando matemática. Toca a campainha, é hora de parar de pensar matemática, hora de pensar geografia, 45 minutos pensando geografia, toca a campainha, hora de parar de pensar geografia, hora de pensar literatura…
Os toques de campainha ou qualquer artifício semelhante contêm uma psicologia do pensamento. Como se o pensamento obedecesse às ordens do relógio. Algo semelhante ao que acontece com os programas de televisão: a marcação das horas liga e desliga os “programas” do pensamento.
Vez por outra um curioso me pergunta sobre as horas que separo para pensar… Sei não… Talvez as horas de insônia ou debaixo do chuveiro ou numa viagem de carro ou avião… O pensamento não se anuncia. Ele simplesmente vem. Todas as vezes que tentei marcar hora para pensar, as ideias me fugiram.

Rubem Alves

Feliz Ano Novo!

Feliz Ano Novo!

Os duendes de estatísticas do WordPress.com prepararam um relatório para o ano de 2012 deste blog.

Aqui está um excerto:

4,329 films were submitted to the 2012 Cannes Film Festival. This blog had 51.000 views in 2012. If each view were a film, this blog would power 12 Film Festivals

Clique aqui para ver o relatório completo