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	<title>Rubem Alves:</title>
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	<description>Ler é fazer amor com as palavras.(blog não oficial de Rubem Alves)</description>
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		<title>Rubem Alves:</title>
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		<title>A Fisgada da Saudade</title>
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		<pubDate>Mon, 09 Jan 2012 21:15:12 +0000</pubDate>
		<dc:creator>tinanati2</dc:creator>
				<category><![CDATA[Uncategorized]]></category>

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		<description><![CDATA[Ela foi rápida, levantou a mão e perguntou. &#8220;O senhor acredita em Deus?&#8221; A pergunta me surpreendeu porque o assunto não era a existência de Deus, mas os descaminhos da educação. Mas logo compreendi. Ela não havia ido ali para aprender sobre escolas, professores e alunos. Ela trouxera sua dor pronta e a levava por [...]<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=rubemalvesdois.wordpress.com&amp;blog=8622355&amp;post=1304&amp;subd=rubemalvesdois&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>
Ela foi rápida, levantou a mão e perguntou.</p>
<p>&#8220;O senhor acredita em Deus?&#8221;</p>
<p>A pergunta me surpreendeu porque o assunto não era a existência de Deus, mas os descaminhos da educação. Mas logo compreendi. Ela não havia ido ali para aprender sobre escolas, professores e alunos. Ela trouxera sua dor pronta e a levava por onde quer que andasse. Não era pergunta de catecismo. Era coisa que lhe doía na carne e na alma, espinho nas vísceras. Pois não é quando a vida dói que balbuciamos o nome sagrado, pra ter esperança, pra que a vida doa menos? Quem pode dizer o nome sagrado, pra ter esperança, pra que a vida doa menos? Quem pode dizer o nome sagrado, acreditando, dorme sem sobressaltos.</p>
<p>Riobaldo sabia e dizia: &#8220;Como não ter Deus? Com Deus existindo, tudo dá esperança, o mundo se resolve. Mas, se não tem Deus, há-de a gente perdidos no vai-vem, e a vida é burra. É o aberto perigo das grandes e pequenas horas&#8230; Tendo Deus, é menos grave se descuidar um pouquinho, pois, no fim, dá certo. Mas, se não tem Deus, então, a gente não tem licença para coisa nenhuma&#8221;.</p>
<p>Lembrei-me de R.S. Thomas, pastor e poeta numa pobre e rude comunidade rural da Irlanda. Pastor, devia saber. Porque não é pra isso que os fiéis vão à igreja, pra ouvirem do padre ou pastor que Ele existe? Mas ele de Deus só ouvia o silêncio: &#8220;Nenhuma palavra veio ao homem ajoelhado. Ele só ouviu a canção do vento. Ou o barulho seco de asas que não via, não eram anjos, eram morcegos no alto do forro da igreja. Ele não virá mais&#8230;&#8221; Nesse &#8220;Ele não virá mais&#8230;&#8221; estava toda a sua dor.</p>
<p>Agora, quando sinto a fisgada, busco o socorro dos poetas. Se eu tivesse me lembrado, minha resposta teria sido outra. Eu teria repetido as palavras do Chico: &#8220;Oh, metade arrancada de mim&#8230; Leva o vulto teu</p>
<p>Que a saudade é o revés de um parto, a saudade é arrumar o quarto</p>
<p>Do filho que já morreu&#8230;&#8221;</p>
<p>Saudade é um vazio que dói, presença da uma ausência, lugar onde o amor se aninhou, mas agora o ninho está vazio&#8230;</p>
<p>Qual é a mãe que mais ama? A que arruma o quarto para o filho que vai chegar ou a que arruma para o filho que nunca vai chegar?</p>
<p>Ela me perguntava se eu &#8220;acreditava&#8221;. Mas eu, como R.S.Thomas e o Chico, de Deus só tenho a nostalgia e a saudade.</p>
<p>Se eu tivesse me lembrado, eu simplesmente teria dito: &#8220;Não, eu não acredito em Deus. Concordo com o poeta: Alberto Caeiro diz que não acredita em Deus porque nunca o viu. Se ele quisesse que eu acreditasse nele, sem dúvida que viria falar comigo, e entraria pela minha porta a dentro dizendo-me: &#8220;Aqui estou&#8221;. Pensar em Deus é desobedecer a Deus, porque Deus quis que não o conhecêssemos. Por isso se nos não mostrou.&#8221;</p>
<p>Não, não acredito em Deus. O que eu tenho é aquela dor chamada saudade&#8230; A Adélia sabia e sofria: &#8220;Eh saudade! De quê, meu Deus? Não sei mais&#8230;&#8221;</p>
<p>Deus é essa fisgada sem nome que sinto no coração. Ela tem hora certa para aparecer: no crepúsculo. Verso de Browning: &#8220;A gente vai andando solidamente pela rua e, de repente, um pôr-de-sol&#8230; E estamos perdidos de novo&#8221;.</p>
<p>&#8220;Por causa dessa dor sem nome eu acendo meus altares com poesia e música para colocar beleza no abismo escuro&#8230;&#8221;</p>
<p>Não, não acredito em Deus. Mas sinto a fisgada&#8230;</p>
<p>Rubem Alves </p>
<br />  <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gocomments/rubemalvesdois.wordpress.com/1304/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/comments/rubemalvesdois.wordpress.com/1304/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godelicious/rubemalvesdois.wordpress.com/1304/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/delicious/rubemalvesdois.wordpress.com/1304/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gofacebook/rubemalvesdois.wordpress.com/1304/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/facebook/rubemalvesdois.wordpress.com/1304/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gotwitter/rubemalvesdois.wordpress.com/1304/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/twitter/rubemalvesdois.wordpress.com/1304/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gostumble/rubemalvesdois.wordpress.com/1304/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/stumble/rubemalvesdois.wordpress.com/1304/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godigg/rubemalvesdois.wordpress.com/1304/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/digg/rubemalvesdois.wordpress.com/1304/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/goreddit/rubemalvesdois.wordpress.com/1304/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/reddit/rubemalvesdois.wordpress.com/1304/" /></a> <img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=rubemalvesdois.wordpress.com&amp;blog=8622355&amp;post=1304&amp;subd=rubemalvesdois&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></content:encoded>
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		<title>Os números de 2011</title>
		<link>http://rubemalvesdois.wordpress.com/2011/12/31/os-numeros-de-2011/</link>
		<comments>http://rubemalvesdois.wordpress.com/2011/12/31/os-numeros-de-2011/#comments</comments>
		<pubDate>Sat, 31 Dec 2011 23:48:03 +0000</pubDate>
		<dc:creator>tinanati2</dc:creator>
				<category><![CDATA[Uncategorized]]></category>

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		<description><![CDATA[Os duendes de estatísticas do WordPress.com prepararam um relatório para o ano de 2011 deste blog. Aqui está um excerto: A sala de concertos da Ópera de Sydney tem uma capacidade de 2.700 pessoas. Este blog foi visitado cerca de 44.000 vezes em 2011. Se fosse a sala de concertos, eram precisos 16 concertos egostados [...]<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=rubemalvesdois.wordpress.com&amp;blog=8622355&amp;post=1305&amp;subd=rubemalvesdois&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Os duendes de estatísticas do WordPress.com prepararam um relatório para o ano de 2011 deste blog.</p>
<div style="background:url('/wp-content/mu-plugins/annual-reports/img/emailteaser.jpg') no-repeat center center;height:300px;"></div>
<p>Aqui está um excerto:</p>
</p>
<blockquote><p>A sala de concertos da Ópera de Sydney tem uma capacidade de 2.700 pessoas. Este blog foi visitado cerca de <strong>44.000</strong> vezes em 2011. Se fosse a sala de concertos, eram precisos 16 concertos egostados para sentar essas pessoas todas.</p></blockquote>
<p><a href="/2011/annual-report/">Clique aqui para ver o relatório completo</a></p>
<br />  <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gocomments/rubemalvesdois.wordpress.com/1305/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/comments/rubemalvesdois.wordpress.com/1305/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godelicious/rubemalvesdois.wordpress.com/1305/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/delicious/rubemalvesdois.wordpress.com/1305/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gofacebook/rubemalvesdois.wordpress.com/1305/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/facebook/rubemalvesdois.wordpress.com/1305/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gotwitter/rubemalvesdois.wordpress.com/1305/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/twitter/rubemalvesdois.wordpress.com/1305/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gostumble/rubemalvesdois.wordpress.com/1305/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/stumble/rubemalvesdois.wordpress.com/1305/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godigg/rubemalvesdois.wordpress.com/1305/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/digg/rubemalvesdois.wordpress.com/1305/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/goreddit/rubemalvesdois.wordpress.com/1305/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/reddit/rubemalvesdois.wordpress.com/1305/" /></a> <img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=rubemalvesdois.wordpress.com&amp;blog=8622355&amp;post=1305&amp;subd=rubemalvesdois&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></content:encoded>
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		<title>Feliz Ano Novo</title>
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		<pubDate>Tue, 27 Dec 2011 22:35:12 +0000</pubDate>
		<dc:creator>tinanati2</dc:creator>
				<category><![CDATA[Uncategorized]]></category>

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		<description><![CDATA[Para termos um feliz ano novo temos que estar dispostos a &#8220;matar&#8221; o que fomos e nascer de novo em cada momento da vida. Está aí um grande desafio. Dos maiores, senão o maior de todos! “As cigarras passam a maior parte de suas vidas debaixo da terra, alimentando- se das raízes das árvores. Disseram-me [...]<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=rubemalvesdois.wordpress.com&amp;blog=8622355&amp;post=1296&amp;subd=rubemalvesdois&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Para termos um feliz ano novo temos que estar dispostos a &#8220;matar&#8221; o que fomos e nascer de novo em cada momento da vida. Está aí um grande desafio. Dos maiores, senão o maior de todos!</p>
<p><a href="http://rubemalvesdois.files.wordpress.com/2011/12/471.jpg"><img src="http://rubemalvesdois.files.wordpress.com/2011/12/471.jpg?w=500&#038;h=332" alt="" title="471" width="500" height="332" class="aligncenter size-full wp-image-1302" /></a><br />
“As cigarras passam a maior parte de suas vidas debaixo da terra, alimentando- se das raízes das árvores. Disseram-me que há certas espécies de cigarras que chegam a viver 15 anos debaixo da terra. De repente, alguma coisa acontece, e surge dentro delas um impulso irresistível para mudar. Saem então dos seus túneis, sobem pelos troncos das árvores, arrebentam suas cascas, subterrâneas gaiolas, e se transformam em seres alados. Se elas não abandonarem suas cascas não se transformarão em seres alados. Continuarão a ser seres subterrâneos. Nossos demônios são nossas cascas. Abandonar as cascas é esquecer a forma subterrânea de ser. A grande transformação das cigarras acontece quando a morte se aproxima. É a proximidade da morte que lhes diz: ‘Chegou a hora de voar, cantar e fazer amor, para continuar a viver&#8230;’ Eu acho que a morte é o único poder capaz de nos trazer vida nova. A consciência da morte nos força a sair de nossas sepulturas, nos dá asas, nos convida a voar e a amar.”<br />
Rubem Alves</p>
<br />  <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gocomments/rubemalvesdois.wordpress.com/1296/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/comments/rubemalvesdois.wordpress.com/1296/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godelicious/rubemalvesdois.wordpress.com/1296/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/delicious/rubemalvesdois.wordpress.com/1296/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gofacebook/rubemalvesdois.wordpress.com/1296/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/facebook/rubemalvesdois.wordpress.com/1296/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gotwitter/rubemalvesdois.wordpress.com/1296/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/twitter/rubemalvesdois.wordpress.com/1296/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gostumble/rubemalvesdois.wordpress.com/1296/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/stumble/rubemalvesdois.wordpress.com/1296/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godigg/rubemalvesdois.wordpress.com/1296/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/digg/rubemalvesdois.wordpress.com/1296/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/goreddit/rubemalvesdois.wordpress.com/1296/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/reddit/rubemalvesdois.wordpress.com/1296/" /></a> <img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=rubemalvesdois.wordpress.com&amp;blog=8622355&amp;post=1296&amp;subd=rubemalvesdois&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></content:encoded>
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		<title>Natal&#8230;</title>
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		<pubDate>Tue, 20 Dec 2011 15:47:45 +0000</pubDate>
		<dc:creator>tinanati2</dc:creator>
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		<description><![CDATA[&#8230; Natal me deixa triste. Porque, por mais que o procure, não o encontro. Natal é uma celebração. As celebrações acontecem para trazer do esquecimento uma coisa querida que aconteceu no passado. A celebração deve ser semelhante à coisa celebrada. Não posso celebrar a vida de Gandhi com um churrasco. Ele era vegetariano, amava os [...]<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=rubemalvesdois.wordpress.com&amp;blog=8622355&amp;post=1293&amp;subd=rubemalvesdois&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><a href="http://rubemalvesdois.files.wordpress.com/2011/12/pao_vinho_luz.jpg"><img src="http://rubemalvesdois.files.wordpress.com/2011/12/pao_vinho_luz.jpg?w=500&#038;h=375" alt="" title="pao_vinho_luz" width="500" height="375" class="aligncenter size-full wp-image-1297" /></a></p>
<p>&#8230; Natal me deixa triste. Porque, por mais que o procure, não o encontro. Natal é uma celebração. As celebrações acontecem para trazer do esquecimento uma coisa querida que aconteceu no passado. A celebração deve ser semelhante à coisa celebrada. Não posso celebrar a vida de Gandhi com um churrasco. Ele era vegetariano, amava os animais. Uma celebração de Gandhi teria de ser feita com verduras, água, leite e um falar baixo. Mais a leitura de alguns textos que ele deixou escritos. Assim Gandhi se tornaria um dos hóspedes da celebração. Agora, um visitante de outro planeta que nada soubesse das nossas tradições, se ele comparecesse às festas de Natal, sem que nenhuma explicação lhe fosse dada, ele concluiria que o objeto da celebração deveria ser um glutão, amante das carnes, bebidas, do estômago cheio, das conversas em voz alta, do desperdício. Nossas celebrações de Natal são como as cascas de cigarra agarradas às árvores. Cascas vazias, das quais a vida se foi. Se perguntar às crianças o que é que está sendo celebrado, eles não saberão o que dizer. Dirão que o Natal é dia do Papai Noel, um velho barrigudo de barbas brancas amante do desperdício, que enche os ricos de presentes e deixa os pobres sem nada. </p>
<p>&#8230; Pois é certo que as celebrações do Natal são orgias de ricos, celebrações do desperdício e lixo. Celebrações do lixo? Aquelas pilhas de papel de presente colorido em que vieram embrulhados os presentes, não são elas essenciais às celebrações? Rasgados, amassados, embolados num canto. Irão para o lixo. Quantas árvores tiveram de ser cortadas para que aqueles papéis fossem feitos. Para quê? Para nada. A indiferença com que tratamos o papel de presentes é uma manifestação da indiferança com que tratamos a nossa Terra.<br />
Estou convidando meus amigos para uma celebração de Natal. Ela deverá imitar a ceia que José e Maria tiveram naquela noite: velas acesas, um pedaço de pão velho, vinho, um pedaço de queijo, algumas frutas secas. À volta de um prato de sopa de fubá – comida de pobre –, tentaremos reconstruir na imaginação aquela cena mansa na estrebaria, um nenezinho deitado numa manjedoura, uma estrela estranha nos céus, os campos iluminados pelos vaga-lumes. E ouviremos as velhas canções de Natal, e leremos poemas, e rezaremos em silêncio. Rezaremos pela nossa Terra, que está sendo destruída pelo mesmo espírito que preside nossas orgias natalinas&#8230;&#8221;</p>
<p>reedição de texto do Rubem Alves</p>
<br />  <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gocomments/rubemalvesdois.wordpress.com/1293/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/comments/rubemalvesdois.wordpress.com/1293/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godelicious/rubemalvesdois.wordpress.com/1293/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/delicious/rubemalvesdois.wordpress.com/1293/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gofacebook/rubemalvesdois.wordpress.com/1293/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/facebook/rubemalvesdois.wordpress.com/1293/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gotwitter/rubemalvesdois.wordpress.com/1293/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/twitter/rubemalvesdois.wordpress.com/1293/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gostumble/rubemalvesdois.wordpress.com/1293/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/stumble/rubemalvesdois.wordpress.com/1293/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godigg/rubemalvesdois.wordpress.com/1293/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/digg/rubemalvesdois.wordpress.com/1293/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/goreddit/rubemalvesdois.wordpress.com/1293/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/reddit/rubemalvesdois.wordpress.com/1293/" /></a> <img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=rubemalvesdois.wordpress.com&amp;blog=8622355&amp;post=1293&amp;subd=rubemalvesdois&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></content:encoded>
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		<title>Fragmento</title>
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		<pubDate>Wed, 26 Oct 2011 21:19:04 +0000</pubDate>
		<dc:creator>tinanati2</dc:creator>
				<category><![CDATA[Uncategorized]]></category>

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		<description><![CDATA[As palavras só têm sentido se nos ajudam a ver o mundo melhor. Aprendemos palavras para melhorar os olhos. Há muitas pessoas de visão perfeita que nada vêem&#8230; O ato de ver não é coisa natural. Precisa ser aprendido! Rubem Alves<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=rubemalvesdois.wordpress.com&amp;blog=8622355&amp;post=1289&amp;subd=rubemalvesdois&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><a href="http://rubemalvesdois.files.wordpress.com/2011/10/vis.jpg"><img src="http://rubemalvesdois.files.wordpress.com/2011/10/vis.jpg?w=500" alt="" title="vis"   class="aligncenter size-full wp-image-1291" /></a></p>
<p>As palavras só têm sentido se nos ajudam a ver o mundo melhor.<br />
Aprendemos palavras para melhorar os olhos.</p>
<p>Há muitas pessoas de visão perfeita que nada vêem&#8230;<br />
O ato de ver não é coisa natural.<br />
Precisa ser aprendido!<br />
Rubem Alves</p>
<br />  <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gocomments/rubemalvesdois.wordpress.com/1289/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/comments/rubemalvesdois.wordpress.com/1289/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godelicious/rubemalvesdois.wordpress.com/1289/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/delicious/rubemalvesdois.wordpress.com/1289/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gofacebook/rubemalvesdois.wordpress.com/1289/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/facebook/rubemalvesdois.wordpress.com/1289/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gotwitter/rubemalvesdois.wordpress.com/1289/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/twitter/rubemalvesdois.wordpress.com/1289/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gostumble/rubemalvesdois.wordpress.com/1289/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/stumble/rubemalvesdois.wordpress.com/1289/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godigg/rubemalvesdois.wordpress.com/1289/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/digg/rubemalvesdois.wordpress.com/1289/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/goreddit/rubemalvesdois.wordpress.com/1289/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/reddit/rubemalvesdois.wordpress.com/1289/" /></a> <img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=rubemalvesdois.wordpress.com&amp;blog=8622355&amp;post=1289&amp;subd=rubemalvesdois&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></content:encoded>
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		<title>500</title>
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		<pubDate>Tue, 04 Oct 2011 21:30:26 +0000</pubDate>
		<dc:creator>tinanati2</dc:creator>
				<category><![CDATA[Uncategorized]]></category>

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		<description><![CDATA[500 textos, 500 fachos de luz que iluminam, enriquecem, encantam. Que bom que existe Rubem Alves e que a sua generosidade nos possibilita o acesso a tanta sabedoria e beleza. Aqui me abasteço diariamente. Abraços a todos que caminham por aqui. Tina Fusco<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=rubemalvesdois.wordpress.com&amp;blog=8622355&amp;post=1277&amp;subd=rubemalvesdois&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>500 textos, 500 fachos de luz que iluminam, enriquecem, encantam. Que bom que existe Rubem Alves e que a sua generosidade nos possibilita o acesso a tanta sabedoria e beleza.<br />
Aqui me abasteço diariamente.<br />
Abraços a todos que caminham por aqui.<br />
Tina Fusco</p>
<br />  <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gocomments/rubemalvesdois.wordpress.com/1277/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/comments/rubemalvesdois.wordpress.com/1277/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godelicious/rubemalvesdois.wordpress.com/1277/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/delicious/rubemalvesdois.wordpress.com/1277/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gofacebook/rubemalvesdois.wordpress.com/1277/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/facebook/rubemalvesdois.wordpress.com/1277/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gotwitter/rubemalvesdois.wordpress.com/1277/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/twitter/rubemalvesdois.wordpress.com/1277/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gostumble/rubemalvesdois.wordpress.com/1277/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/stumble/rubemalvesdois.wordpress.com/1277/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godigg/rubemalvesdois.wordpress.com/1277/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/digg/rubemalvesdois.wordpress.com/1277/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/goreddit/rubemalvesdois.wordpress.com/1277/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/reddit/rubemalvesdois.wordpress.com/1277/" /></a> <img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=rubemalvesdois.wordpress.com&amp;blog=8622355&amp;post=1277&amp;subd=rubemalvesdois&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></content:encoded>
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		<title>O professor</title>
		<link>http://rubemalvesdois.wordpress.com/2011/10/04/o-professor/</link>
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		<pubDate>Tue, 04 Oct 2011 21:20:13 +0000</pubDate>
		<dc:creator>tinanati2</dc:creator>
				<category><![CDATA[Uncategorized]]></category>

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		<description><![CDATA[Outubro é o mês do professor. Aqui um carinho para todos que nos guiam os olhos para que possamos fazer da nossa vida um aprendizado constante. . . Quando chovia depois de muito sol quente, meu pai gostava de ficar na janela da casa velha, lá em Minas, vendo as plantas no quintal, cada uma [...]<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=rubemalvesdois.wordpress.com&amp;blog=8622355&amp;post=1271&amp;subd=rubemalvesdois&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><strong>Outubro é o mês do professor. Aqui um carinho para todos que nos guiam os olhos para que possamos fazer da nossa vida um aprendizado constante.<strong><br />
.<br />
<a href="http://rubemalvesdois.files.wordpress.com/2011/10/o-professor.jpg"><img src="http://rubemalvesdois.files.wordpress.com/2011/10/o-professor.jpg?w=500" alt="" title="o professor"   class="aligncenter size-full wp-image-1272" /></a></p>
<p>.<br />
Quando chovia depois de muito sol quente, meu pai gostava de ficar na janela da casa velha, lá em Minas, vendo as plantas no quintal, cada uma delas fazendo os gestos que sabia. Os tomateiros, hortelãs e manjericão, exalando seus perfumes. As folhas de couve e espinafre, brincando de juntar gotas d’água, grandes e brilhantes. As árvores e arbustos executando seus passos de dança, balançando as folhas, sob os pingos que caíam…</p>
<p>Ele olhava, sorria, baforava o seu cachimbo e dizia:</p>
<p>“Veja como estão agradecidas…”</p>
<p>Rubem Alves</p>
<br />  <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gocomments/rubemalvesdois.wordpress.com/1271/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/comments/rubemalvesdois.wordpress.com/1271/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godelicious/rubemalvesdois.wordpress.com/1271/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/delicious/rubemalvesdois.wordpress.com/1271/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gofacebook/rubemalvesdois.wordpress.com/1271/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/facebook/rubemalvesdois.wordpress.com/1271/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gotwitter/rubemalvesdois.wordpress.com/1271/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/twitter/rubemalvesdois.wordpress.com/1271/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gostumble/rubemalvesdois.wordpress.com/1271/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/stumble/rubemalvesdois.wordpress.com/1271/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godigg/rubemalvesdois.wordpress.com/1271/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/digg/rubemalvesdois.wordpress.com/1271/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/goreddit/rubemalvesdois.wordpress.com/1271/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/reddit/rubemalvesdois.wordpress.com/1271/" /></a> <img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=rubemalvesdois.wordpress.com&amp;blog=8622355&amp;post=1271&amp;subd=rubemalvesdois&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></content:encoded>
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	</item>
		<item>
		<title>Tudo o que é pesado flutua no ar</title>
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		<pubDate>Tue, 04 Oct 2011 20:05:38 +0000</pubDate>
		<dc:creator>tinanati2</dc:creator>
				<category><![CDATA[Uncategorized]]></category>

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		<description><![CDATA[A mesa onde trabalho tem onze gavetas: cinco de cada lado e uma no meio. Nas gavetas laterais eu coloco as idéias que me aparecem, rabiscadas em pedaços de papel, cada uma delas no lugar que lhe pertence. Tem a gaveta da poesia, da psicanálise, das estórias infantis, da educação. Havendo tempo e desejo a [...]<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=rubemalvesdois.wordpress.com&amp;blog=8622355&amp;post=1263&amp;subd=rubemalvesdois&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>    <a href="http://rubemalvesdois.files.wordpress.com/2011/10/pipa.jpg"><img src="http://rubemalvesdois.files.wordpress.com/2011/10/pipa.jpg?w=500" alt="" title="pipa.jpg"   class="aligncenter size-full wp-image-1269" /></a><br />
    A mesa onde trabalho tem onze gavetas: cinco de cada lado e uma no meio. Nas gavetas laterais eu coloco as idéias que me aparecem, rabiscadas em pedaços de papel, cada uma delas no lugar que lhe pertence. Tem a gaveta da poesia, da psicanálise, das estórias infantis, da educação. Havendo tempo e desejo a gente vai lá, põe tudo em ordem, e a bagunça vira um livro. A gaveta do meio é diferente. Nela eu não arquivo idéias. Guardo objetos, os mais estranhos e inesperados. Por exemplo, um saquinho de bolinhas de gude. Para quê? Não sei. Faz tempo que não jogo gude.<br />
    Acho que as guardei lá pela mesma razão que os namorados de outros tempos colocavam uma flor entre as páginas de um livro: para preservar um momento de felicidade, perdido.<br />
    Junto com as bolinhas de gude moro eu, menino que só existe como saudade. De todas as gavetas, acho que esta e a que mais se parece com a nossa cabeça, baú entulhado com memórias de felicidades que tivemos. No mais das vezes tudo fica esquecido, na gaveta e no baú, pois as pressões da realidade deixam pouco tempo para o devaneio.<br />
Mas, vez por outra, uma imagem inesperada faz acordar os objetos adormecidos. Eles se mexem, vem a saudade, e a gente se põe a procurá-los. Não e por isto que temos álbuns de retratos? Arquivos paralisados de felicidades perdidas que retornam quando de novo os vemos.<br />
    Pois foi o que aconteceu com minhas bolinhas de gude. E a culpada foi a Mariana. Acontece que ela começou a descobrir o mundo, e dentre todas as infinitas formas que a natureza esbanja, foi das bolinhas que ela se enamorou. Via bolinhas em tudo: ervilhas, moedas, brincos, botões, cerejas, lua, estrelas. Com o seu dedinho ia apontando enquanto a boca repetia a palavra mágica. Foi então que me lembrei das minhas bolinhas de gude. Escarafunchei a gaveta da saudade e fiz-lhe esta espantosa revelação: também eu brincava com bolinhas.<br />
    Uma menininha e três bolinhas de gude. Ela brinca. Seus olhos e seus gestos revelam uma enorme alegria.<br />
    Pois há tantas coisas divertidas que podem ser feitas com bolinhas: podem ser roladas na mão, podem ser roladas no chão, podem ser jogadas para cima, podem ser batidas umas nas outras, podem ser escondidas. As bolinhas são suas professoras. Estão lhe dizendo: Vê? O mundo é assim, como nós, bolinhas, brinquedos. O mundo é um grande brinquedo.<br />
    Tantas coisas divertidas se podem fazer com ele. O mundo é para ser brincado. Os adultos não sabem os professores não percebem: o mundinho da menina com as três bolinhas de gude resume tudo o de importante a ser aprendido: a vida é para ser brincada. Tudo o mais que se aprende geografia, história, física, química biologia, matemática, são bolinhas de gude: brinquedos, objetos de prazer.<br />
    Brinquedo não serve para nada. Terminado, guardam-se as bolinhas de gude no saquinho e o mundo continua como era. Nada se produziu, nenhuma mercadoria que pudesse ser vendida, não se ganhou dinheiro, não se ficou mais rico. Pelo contrário: perdeu-se. Perdeu-se tempo, perdeu-se energia. Por isto que os adultos práticos e sérios não gostam de brincar. O brinquedo é uma atividade inútil. E, no entanto, o corpo quer sempre voltar a ele. Por quê? Porque o brinquedo, sem produzir qualquer utilidade, produz alegria. Felicidade é brincar. E sabem por quê? Porque no brinquedo nos encontramos com aquilo que amamos. No brinquedo o corpo faz amor com objetos do seu desejo. Pode ser qualquer coisa: ler um poema, escutar uma música, cozinhar, jogar xadrez, cultivar uma flor, conversa fiada, tocar flauta, empinar papagaio, nadar, ficar de barriga para o ar olhando as nuvens que navegam, acariciar o corpo da pessoa amada &#8211; coisas que não levam a nada. Amar é brincar. Não leva a nada. Porque não é para levar a nada. Quem brinca já chegou. Coisas que levam a outras, úteis, rebelam que ainda estamos a caminho: ainda não abraçamos o objeto amado. Mas no brinquedo temos uma amostra do Paraíso. Dizem que o trabalho enobrece. Poucos se dão conta de que ele embota, cansa e emburrece. É certo que Deus, todo-poderoso, trabalhou seis dias para criar o mundo. Foi o mesmo que levou para tirar de dentro da gaveta dos seus sonhos as bolinhas de gude para a brincadeira da vida. Trabalhou para criar um lugar de deleite onde a vida atingisse sua expressão suprema: pura inutilidade, puro gozo, puro brinquedo. A única finalidade do saber adulto é permitir que a criança que mora em nós continue a brincar.<br />
    O mundinho da Mariana é muito pequeno. Não vai muito além dos seus braços e das suas perninhas que mal aprenderam a andar. Ela brinca com coisas: bolinhas de gude, bonecas, panelinhas. Nisto ela se parece muito com os gatinhos, cães, potros, que também gostam de brincar. Mas ela já tem uma coisa que eles não têm &#8211; uma varinha mágica de condão que fará toda a diferença: ela está aprendendo a falar. A alegria não está só quando ela tem as bolinhas em suas mãos. Ela ri ao falar o nome, mesmo que não haja bolinha alguma por perto: ela brinca com as palavras.<br />
    Bolinha, bolinha, bolinha, ela diz. E seu rosto se ilumina. Pelo poder da palavra ela é capaz de brincar com coisas ausentes. Já aprendeu o segredo da poesia.<br />
Pois o que e um poema? É claro que não é a coisa. Se o poema fosse a coisa ele seria supérfluo, desnecessário, pura tautologia. O poema é um objeto impossível que  construímos pela magia do jogo das palavras.<br />
    Isso mesmo: jogo das palavras: palavras são brinquedos. O silêncio verde dos campos&#8230; Onde já se viu isto? Silêncio verde não existe. Mas o poeta brinca com as palavras e o silêncio verde aparece. Quando a Mariana chama as ervilhas e as estrelas pelo mesmo nome, bolinha, ela revela já haver aprendido a transformação básica da fala poética, a metáfora. Pois tanto poderá ver o seu prato cheio de estrelas como poderá ver o céu como um prato divino cheio de ervilhas. E não digam<br />
que estou indo longe demais, pois foi assim mesmo que surgiu o nome Via Láctea &#8211; as infinitas gotas do leite espirrado do seio de uma mãe divina sobre o firmamento.<br />
    Pois é: ela aprendeu a falar. E ao falar aprendeu a brincar com as palavras. E ao aprender a brincar com as palavras, ela aprendeu a brincar com coisas que não existem. E ao aprender a brincar com coisas que não existem aprendeu a pensar! Lembre-se do que disse Valéry: O pensamento é, em resumo, o trabalho que faz viver aquilo que não existe!<br />
    Pense sobre isto: um chato é uma pessoa que não sabe brincar com o inexistente. É aquela pessoa que, depois de ouvir a piada que faz todo mundo rir, faz a pergunta:<br />
Mas isto aconteceu mesmo? Coitado. Só sabe brincar com bolinhas de vidro. Não sabe brincar com bolhas de sabão. O que me leva a enunciar o resumo de minha filosofia da educação, que só me ficou clara quando vi a Mariana brincando com as palavras: o professor é aquele que ensina a criança a fazer flutuar suas bolinhas de vidro dentro das bolhas de sabão. Tudo o que é pesado flutua no ar.<br />
Rubem alves</p>
<br />  <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gocomments/rubemalvesdois.wordpress.com/1263/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/comments/rubemalvesdois.wordpress.com/1263/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godelicious/rubemalvesdois.wordpress.com/1263/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/delicious/rubemalvesdois.wordpress.com/1263/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gofacebook/rubemalvesdois.wordpress.com/1263/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/facebook/rubemalvesdois.wordpress.com/1263/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gotwitter/rubemalvesdois.wordpress.com/1263/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/twitter/rubemalvesdois.wordpress.com/1263/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gostumble/rubemalvesdois.wordpress.com/1263/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/stumble/rubemalvesdois.wordpress.com/1263/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godigg/rubemalvesdois.wordpress.com/1263/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/digg/rubemalvesdois.wordpress.com/1263/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/goreddit/rubemalvesdois.wordpress.com/1263/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/reddit/rubemalvesdois.wordpress.com/1263/" /></a> <img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=rubemalvesdois.wordpress.com&amp;blog=8622355&amp;post=1263&amp;subd=rubemalvesdois&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></content:encoded>
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		<title>Escola e Sofrimento</title>
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		<pubDate>Mon, 03 Oct 2011 21:35:22 +0000</pubDate>
		<dc:creator>tinanati2</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Estou com medo de que as crianças me chamem de mentiroso. Pois eu disse que o negócio dos professores é ensinar a felicidade. Acontece que eu não conheço nenhuma criança que concorde com isto. Se elas já tivessem aprendido as lições da política, me acusariam de porta voz da classe dominante. Pois, como todos sabem, [...]<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=rubemalvesdois.wordpress.com&amp;blog=8622355&amp;post=1256&amp;subd=rubemalvesdois&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>
    <a href="http://rubemalvesdois.files.wordpress.com/2011/10/liv.jpg"><img src="http://rubemalvesdois.files.wordpress.com/2011/10/liv.jpg?w=500" alt="" title="liv"   class="aligncenter size-full wp-image-1261" /></a>Estou com medo de que as crianças me chamem de mentiroso. Pois eu disse que o negócio dos professores é ensinar a felicidade. Acontece que eu não conheço nenhuma criança que concorde com isto. Se elas já tivessem aprendido as lições da política, me acusariam de porta voz da classe dominante. Pois, como todos sabem, mas ninguém tem coragem de dizer, toda escola tem uma classe dominante e uma classe dominada: a primeira, formada por professores e administradores, e que detém o monopólio do saber, e a segunda, formada pelos alunos, que detém o monopólio da ignorância, e que deve submeter o seu comportamento e o seu pensamento aos seus superiores,  se desejam passar de ano.<br />
    Basta contemplar os olhos amedrontados das crianças e os seus rostos cheios de ansiedade para compreender que a escola lhes traz sofrimento. O meu palpite é que, se se fizer uma pesquisa entre as crianças e os adolescentes sobre as suas experiências de alegria na escola, eles terão muito que falar sobre a amizade e o companheirismo entre eles, mas pouquíssimas serão as referências à alegria de estudar, compreender e aprender.<br />
    A classe dominante argumentará que o testemunho dos alunos não deve ser levado em consideração. Eles não sabem, ainda&#8230; Quem sabe são os professores e os administradores.<br />
    Acontece que as crianças não estão sozinhas neste julgamento. Eu mesmo só me lembro com alegria de dois professores dos meus tempos de grupo, ginásio e científico.<br />
A primeira, uma gorda e maternal senhora, professora do curso de admissão, tratava-nos a todos como filhos. Com ela era como se todos fôssemos uma grande família.<br />
O outro, professor de Literatura, foi a primeira pessoa a me introduzir nas delícias da leitura. Ele falava sobre os grandes clássicos com tal amor que deles nunca  pude me esquecer. Quanto aos outros, a minha impressão era a de que nos consideravam como inimigos a serem confundidos e torturados por um saber cuja finalidade e utilidade nunca se deram ao trabalho de nos explicar. Compreende-se, portanto, que entre as nossas maiores alegrias estava a notícia de que o professor estava doente e não poderia dar a aula. E até mesmo uma dor de barriga ou um resfriado era motivo de alegria, quando a doença nos dava uma desculpa aceitável para não ir à escola.<br />
    Não me espanto, portanto, que tenha aprendido tão pouco na escola. O que aprendi foi fora dela e contra ela. Jorge Luís Borges passou por experiência semelhante.<br />
Declarou que estudou a vida inteira, menos nos anos em que esteve na escola. Era, de fato, difícil amar as disciplinas representadas por rostos e vozes que não queriam ser amados.<br />
    Esta situação, ao que parece, tem sido a norma, tanto que e assim que aparece freqüentemente relatada na literatura. Romain Rolland conta a experiência de um  aluno: &#8220;&#8230; afinal de contas, não entender nada já é um hábito. Três quartas partes do que se diz e do que me fazem escrever na escola: a gramática, ciências, a  moral e mais um terço das palavras que leio, que me ditam, que eu mesmo emprego &#8211; eu não sei o que elas querem dizer. Já observei que em minhas redações as que eu menos compreendo são as que levam mais chances de ser classificadas em primeiro lugar&#8221;. Mas nem precisaríamos ler Romain Rolland: bastaria ler os textos que os nossos filhos têm de ler e aprender. Concordo com Paul Goodmann na sua afirmação de que a maioria dos estudantes nos colégios e universidades não desejam estar lá. Estão lá porque são obrigados.<br />
    Os métodos clássicos de tortura escolar como a palmatória e a vara já foram abolidos. Mas poderá haver sofrimento maior para uma criança ou um adolescente que ser forçado a mover-se numa floresta de informações que ele não consegue compreender, e que nenhuma relação parecem ter com sua vida?<br />
    Compreende-se que, com o passar do tempo a inteligência se encolha por medo e horror diante dos desafios intelectuais., e que o aluno passe a se considerar como um burro. Quando a verdade é outra: a sua inteligência foi intimidada pelos professores e, por isto, ficou paralisada.<br />
    Os técnicos em educação desenvolveram métodos de avaliar a aprendizagem e, a partir dos seus resultados, classificam os alunos. Mas ninguém jamais pensou em avaliar a alegria dos estudantes &#8211; mesmo porque não há métodos objetivos para tal. Porque a alegria é uma condição interior, uma experiência de riqueza e de liberdade de pensamentos e sentimentos. A educação, fascinada pelo conhecimento do mundo, esqueceu-se de que sua vocação é despertar o potencial único que jaz adormecido em cada estudante. Daí o paradoxo com que sempre nos defrontamos: quanto maior o conhecimento, menor a sabedoria. T. S. Eliot fazia esta terrível pergunta, que deveria ser motivo de meditação para todos os professores: &#8220;Onde está a sabedoria que perdemos no conhecimento?&#8221;<br />
    Vai aqui este pedido aos professores, pedido de alguém que sofre ao ver o rosto aflito das crianças, dos adolescentes: lembrem-se de que vocês são pastores da alegria, e que a sua responsabilidade primeira é definida por um rosto que lhes faz um pedido: &#8220;Por favor, me ajude a ser feliz&#8230;”.</p>
<p>Rubem Alves </p>
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		<title>As receitas</title>
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		<pubDate>Mon, 03 Oct 2011 20:17:15 +0000</pubDate>
		<dc:creator>tinanati2</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Quando eu era menino, na escola, as professoras me ensinaram que o Brasil estava destinado a um futuro grandioso porque as suas terras estavam cheias de riquezas: ferro, ouro, diamantes, florestas e coisas semelhantes. Ensinaram errado. O que me disseram equivale a predizer que um homem será um grande pintor por ser dono de uma [...]<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=rubemalvesdois.wordpress.com&amp;blog=8622355&amp;post=1254&amp;subd=rubemalvesdois&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></description>
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  <a href="http://rubemalvesdois.files.wordpress.com/2011/10/cent.jpg"><img src="http://rubemalvesdois.files.wordpress.com/2011/10/cent.jpg?w=500" alt="" title="cent"   class="aligncenter size-full wp-image-1257" /></a>  Quando eu era menino, na escola, as professoras me ensinaram que o Brasil estava destinado a um futuro grandioso porque as suas terras estavam cheias de riquezas: ferro, ouro, diamantes, florestas e coisas semelhantes. Ensinaram errado. O que me disseram equivale a predizer que um homem será um grande pintor por ser dono de  uma loja de tintas. Mas o que faz um quadro não é a tinta: são as idéias que moram na cabeça do pintor. São as idéias dançantes na cabeça que fazem as tintas dançar sobre a tela.<br />
    Por isso, sendo um país tão rico, somos um povo tão pobre. Somos pobres em idéias. Não sabemos pensar. Nisto nos parecemos com os dinossauros, que tinham excesso de massa muscular e cérebros de galinha. Hoje, nas relações de troca entre os países, o bem mais caro, o bem mais cuidadosamente guardado, o bem que não se vende, são as idéias. É com as idéias que o mundo é feito. Prova disso são os tigres asiáticos, Japão, Coréia, Formosa que, pobres de recursos naturais, se enriqueceram por ter se especializado na arte de pensar.<br />
    Minha filha me fez uma pergunta: &#8220;O que é pensar?&#8221; Disse-me que &#8216;esta era uma pergunta que o professor de filosofia havia proposto à classe. Pelo que lhe dou os parabéns. Primeiro por ter ido diretamente à questão essencial. Segundo, por ter tido a sabedoria de fazer a pergunta, sem dar a resposta. Porque, se tivesse dado a resposta, teria com ela cortado as asas do pensamento. O pensamento é como a águia que só alça vôo nos espaços vazios do desconhecido. Pensar é voar sobre  o que não se sabe. Não existe nada mais fatal para o pensamento que o ensino das respostas certas. Para isso existem as escolas: não para ensinar as respostas, mas para ensinar as perguntas. As respostas nos permitem andar sobre a terra firme. Mas somente as perguntas nos permitem entrar pelo mar desconhecido.<br />
    E, no entanto, não podemos viver sem as respostas. As asas, para o impulso inicial do vôo, dependem de pés apoiados na terra firme. Os pássaros, antes de saber voar, aprendem a se apoiar sobre os seus pés. Também as crianças, antes de aprender a voar, têm que aprender a caminhar sobre a terra firme.<br />
    Terra firme: as milhares de perguntas para as quais as gerações passadas já descobriram as respostas. O primeiro momento da educação é a transmissão deste saber.<br />
    Nas palavras de Roland Barthes: &#8220;Há um momento em que se ensina o que se sabe&#8230;&#8221; E o curioso é que este aprendizado é justamente para nos poupar da necessidade de pensar.<br />
    As gerações mais velhas ensinam às mais novas as receitas que funcionam. Sei amarrar os meus sapatos automaticamente, sei dar o nó na minha gravata automaticamente:<br />
as mãos fazem o seu trabalho com destreza enquanto as idéias andam por outros lugares.<br />
    Aquilo que um dia eu não sabia me foi ensinado; eu aprendi com o corpo e esqueci com a cabeça. E a condição para que minhas mãos saibam bem é que a cabeça não pense sobre o que elas estão fazendo. Um pianista que, na hora da execução, pensa sobre os caminhos que seus dedos deverão seguir, tropeçará fatalmente. Há a estória de uma centopéia que andava feliz pelo jardim, quando foi interpelada por um grilo: &#8220;Dona Centopéia, sempre tive curiosidade sobre uma coisa: quando a senhora anda, qual, dentre as suas cem pernas, é aquela que a senhora movimenta primeiro?&#8221; &#8220;Curioso&#8221;, ela respondeu. &#8220;Sempre andei, mas nunca me propus esta questão. Da próxima vez, prestarei atenção.&#8221; Termina a estória dizendo que a centopéia nunca mais conseguiu andar.<br />
    Todo mundo fala, e fala bem.<br />
    Ninguém sabe como a linguagem foi ensinada e nem como ela foi aprendida. A despeito disto, o ensino foi tão eficiente que não preciso pensar para falar. Ao falar não sei se estou usando um substantivo, um verbo ou um adjetivo, e nem me lembro das regras da gramática. Quem, para falar, tem de se lembrar destas coisas, não sabe falar. Há um nível de aprendizado em que o pensamento é um estorvo. Só se sabe bem com o corpo aquilo que a cabeça esqueceu. E assim escrevemos, lemos, andamos  de bicicleta, nadamos, pregamos pregos, guiamos carros: sem saber com a cabeça, porque o corpo sabe melhor. É um conhecimento que se tornou parte inconsciente de mim mesmo. E isso me poupa do trabalho de pensar o já sabido. Ensinar aqui, é inconscientizar.<br />
    O sabido é o não-pensado, que fica guardado, pronto para ser usado como receita, na memória desse computador que se chama cérebro. Basta apertar a tecla adequada para que a receita apareça no vídeo da consciência. Aperto a tecla moqueca. A receita aparece no meu vídeo cerebral: panela de barro, azeite, peixe, tomate, cebola, coentro, cheiro verde, urucum, sal, pimenta, seguidos de uma se série de instruções sobre o que fazer.<br />
    Não é coisa que eu tenha inventado. Me foi ensinado. Não precisei pensar. Gostei. Foi para a memória. Esta é a regra fundamental desse computador que vive no corpo humano: só vai para a memória aquilo que e objeto do desejo. A tarefa primordial do professor: seduzir o aluno para que ele deseje e, desejando, aprenda.<br />
    E o saber fica memorizado de cor &#8211; etimologicamente, no coração -, à espera de que a tecla do desejo de novo o chame do seu lugar de esquecimento.<br />
    Memória: um saber que o passado sedimentou. Indispensável para se repetir as receitas que os mortos nos legaram. E elas são boas. Tão boas que elas nos fazem esquecer que é preciso voar. Permitem que andemos pelas trilhas batidas. Mas nada têm a dizer sobre mares desconhecidos.<br />
    Muitas pessoas, de tanto repetir as receitas, metamorfosearam-se de águias em tartarugas. E não são poucas as tartarugas que possuem diplomas universitários.<br />
    Aqui se encontra o perigo das escolas: de tanto ensinar o que o passado legou &#8211; e ensinar bem &#8211; fazem os alunos se esquecer de que o seu destino não é o passado cristalizado em saber, mas um futuro que se abre como vazio, um não-saber que somente pode ser explorado com as asas do pensamento. Compreende-se então que Barthes tenha dito que, seguindo-se ao tempo em que se ensina o que se sabe, deve chegar o tempo quando se ensina o que não se sabe.</p>
<p>Rubem Alves</p>
<br />  <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gocomments/rubemalvesdois.wordpress.com/1254/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/comments/rubemalvesdois.wordpress.com/1254/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godelicious/rubemalvesdois.wordpress.com/1254/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/delicious/rubemalvesdois.wordpress.com/1254/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gofacebook/rubemalvesdois.wordpress.com/1254/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/facebook/rubemalvesdois.wordpress.com/1254/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gotwitter/rubemalvesdois.wordpress.com/1254/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/twitter/rubemalvesdois.wordpress.com/1254/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gostumble/rubemalvesdois.wordpress.com/1254/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/stumble/rubemalvesdois.wordpress.com/1254/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godigg/rubemalvesdois.wordpress.com/1254/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/digg/rubemalvesdois.wordpress.com/1254/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/goreddit/rubemalvesdois.wordpress.com/1254/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/reddit/rubemalvesdois.wordpress.com/1254/" /></a> <img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=rubemalvesdois.wordpress.com&amp;blog=8622355&amp;post=1254&amp;subd=rubemalvesdois&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></content:encoded>
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